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    O Ranking das Capitais Brasileiras Amigas da Atividade Física

    De transporte público a áreas verdes, cientistas da PUC-PR e a SAÚDE esmiuçaram a infraestrutura de promoção à atividade física das capitais

    A culpa do sedentarismo não é sua

    Em vez de apontar o dedo para a falta de policiamento, a desigualdade social e outros fatores, o sujeito comenta com o amigo que acaba de ser roubado: “Se você tivesse escondido o celular, ou nem saído de casa com ele, isso não teria acontecido”. Pois atribuir a criminalidade a descuidos pessoais não é tão diferente de responsabilizar a preguiça pelo sedentarismo.

    “A promoção da atividade física vai muito além de aspectos individuais. O ambiente construído, o transporte e as políticas públicas, entre outras questões, influem na decisão de alguém correr no parque ou caminhar até o trabalho, por exemplo”, expõe Alex Florindo, profissional de educação física, epidemiologista e presidente da Sociedade Brasileira de Atividade Física e Saúde.

    Apesar do número crescente de notícias sobre os benefícios de tirar o corpo do marasmo, um estudo com 168 países revela que a quantidade de pessoas que dedicam menos de 150 minutos por semana para se mexer no trabalho, no transporte, em tarefas domésticas ou no tempo livre permaneceu estável entre 2000 e 2016 — na casa de 28%. O mesmo levantamento, coordenado pela Organização Mundial da Saúde, indica que 47% dos brasileiros se esforçam pouco fisicamente. É a pior taxa da América Latina e do Caribe, com o agravante de ter subido mais de 15%.

    Daí a importância de um projeto como o Ranking das Capitais Brasileiras Amigas da Atividade Física, realizado pelos pesquisadores Rodrigo Reis, Priscila Gonçalves e Adriano Akira, da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), com o apoio de SAÚDE. No relatório dessa empreitada eles escrevem:

    “O objetivo é mapear informações disponíveis sobre as capitais e classificá-las segundo o potencial para a prática de atividade física, seja no lazer, seja na forma de transporte. […] O ranking […] identifica as características das cidades que devem receber mais atenção por parte de gestores públicos e cidadãos”.

    A metodologia e a classificação final

    Agora, como ranking foi feito? Os estudiosos buscaram dados de indicadores urbanos já atrelados pela ciência à atividade física. Para serem incluídos, eles deveriam contemplar todas as capitais, terem origem em uma mesma base (IBGE, por exemplo) e serem públicos e atualizados periodicamente. Esse rigor, que deixou certas informações de fora, serviu para permitir comparações. Aí, todos os números foram separados em cinco grandes domínios (abordaremos cada um mais para frente):

    Acesso a espaços de lazer
    Acesso a transporte público
    Desenho urbano
    Estrutura viária para atividade física
    Mortes no trânsito e criminalidade

    Em cada uma das cinco categorias, as cidades receberam uma nota por um método estatístico, chamado de escore Z. Fazendo a média de todos, saiu a classificação final. Sem mais delongas, conheça as cidades mais e as menos favoráveis à atividade física, segundo o nosso ranking:

    A classificação geral

    Posição

    Município (UF)

    1o

    São Paulo (SP)

    2o

    Belo Horizonte (MG)

    3o

    Vitoria (ES)

    4o

    Curitiba (PR)

    5o

    Rio De Janeiro (RJ)

    6o

    Porto Alegre (RS)

    7o

    Palmas (TO)

    8o

    Goiânia (GO)

    9o

    Florianópolis (SC)

    10o

    Brasília (DF)

    11o

    Natal (RN)

    12o

    Teresina (PI)

    13o

    Aracaju (SE)

    14o

    Recife (PE)

    15o

    Campo Grande (MS)

    16o

    Cuiabá (MT)

    17o

    Fortaleza (CE)

    18o

    Salvador (BA)

    19o

    João Pessoa (PB)

    20o

    Boa Vista (RR)

    21o

    Manaus (AM)

    22o

    São Luís (MA)

    23o

    Maceió (AL)

    24o

    Belém (PA)

    25o

    Rio Branco (AC)

    26o

    Macapá (AP)

    27o

    Porto Velho (RO)

    Campeãs por número de habitantes

    De 100 a 500 mil habitantes: Vitória (ES)
    De 500 mil a 1 milhão: Natal (RN)
    De 1 a 2 milhões: Curitiba (PR)
    Mais de 2 milhões: São Paulo (SP)

    O que tirar do ranking

    São Paulo, o município brasileiro mais populoso e um dos que melhor se encaixam na definição de selva de pedra, ficou em primeiro lugar no ranking — apesar de, claro, não liderar os cinco domínios que o compõem. Surpreendeu-se?

    “Já participei de projetos nessa e em outras cidades que ocupam as primeiras posições. E era mais ou menos o que eu esperava”, interpreta Reis.

    Cabe reforçar que a iniciativa não mede só a presença de instalações esportivas. Na verdade, ela também incorpora quesitos como criminalidade, que influem na vida ativa.

    A capital paulista, por exemplo, carrega a menor taxa de homicídios por armas de fogo — 9,9 a cada 100 mil habitantes.

    “No início da atual gestão da prefeitura de São Paulo, foi traçada uma meta […] de aumentar em 20% o índice de atividade física até 2020”, afirma, em nota, a Secretaria Municipal de Esportes e Lazer.

    Agora devemos abordar uma aparente contradição: de acordo com o Vigitel de 2016, uma pesquisa do Ministério da Saúde, a maior metrópole do país possui o menor índice de residentes que se exercitam ao menos 150 minutos por semana no tempo livre (32%). Como a lanterna nesse quesito lidera o novo ranking?!

    Bem, antes de tudo, a porcentagem de paulistanos que gastam ao menos uma hora e meia por semana se locomovendo a pé ou de bike para cumprir suas tarefas diárias (16,9%) é a segunda maior do país, atrás somente da de cariocas (17,1%).

    “E o ranking acabou, pela disponibilidade de indicadores, valorizando fatores vinculados ao deslocamento ativo”, analisa Akira.

    Ora, faltam no país mais dados que cumpram os requisitos desse projeto e que estão associados aos exercícios no lazer (como a quantidade de parques). Já explicamos a metodologia do ranking acima.

    “Além disso, o Vigitel não foi incluído no ranking. Até porque não queremos avaliar comportamentos, mas, sim, as condições oferecidas pelas cidades, que inclusive podem levar um tempo para serem integradas no cotidiano de cada um”, diferencia Reis.

    Limitações

    É óbvio que o ranking tem pontos fracos.

    “A intenção me parece melhor do que o resultado”, avalia o arquiteto Fábio Duarte de Araújo Silva, professor da PUC-PR que não participou diretamente do projeto.

    prefeitura de Manaus, detentora do 21º lugar, oferece uma ponderação pertinente por e-mail:

    “Observamos que algumas […] fontes não possuem atualização recente. […] Vale destacar que os dados mensurados de iluminação pública são de 2010. Na gestão do prefeito Arthur Virgílio Neto, Manaus se tornou, proporcionalmente, a capital com maior quantidade de iluminação em LED […], contribuindo para a qualidade de vida e a segurança”.

    De fato, certos indicadores apresentam defasagem, o que reitera a necessidade de o Brasil gerar dados públicos de qualidade destinados a uma avaliação completa das condições oferecidas para tirar o povo do sedentarismo.

    Outro fator difícil de englobar em iniciativas como essa é a qualidade dos serviços. Veja o exemplo das calçadas, incluídas no domínio de estrutura viária para a atividade física do ranking. Por meio do Censo de 2010, é possível saber aproximadamente quantos domicílios são cercados por elas. Só que versões esburacadas, estreitas ou com um degrau em relação à do vizinho inibem o deslocamento, especialmente entre deficientes e idosos.

    “No Brasil, a responsabilidade da manutenção da calçada costuma ser do proprietário do imóvel. Como o dono de uma casa, mesmo com boa vontade, vai interligar essas e outras infraestruturas sem um plano maior?”, indaga Gabriela Callejas, arquiteta urbanista da organização social Cidade Ativa.

    Como dá pra perceber, a própria legislação influencia no sedentarismo.

    O bacana desse ranking é tirar a culpa do indivíduo e propor uma discussão ampla”, analisa o educador físico e epidemiologista Inácio Crochemore da Silva, da Universidade Federal de Pelotas, no Rio Grande do Sul. “Fazer atividade física é só uma das inúmeras demandas da vida. Sem condições adequadas, é natural que muita gente diga não ter tempo ou motivação para ela”, arremata.

    Veja, a seguir, avaliações de cada domínio do ranking, passando do acesso a espaços de lazer até a criminalidade. E, claro, confira as melhores e piores capitais em cada categoria.

    1. Acesso a espaços de lazer

    Vitória ostenta 38 instalações esportivas públicas por 100 mil habitantes, o maior número no ranking. A prefeitura não respondeu a SAÚDE até o fim da apuração desta reportagem, mas um estudo feito em Belo Horizonte — sexta colocada na categoria — atesta a relevância dessa infraestrutura. Segundo o artigo, quem morava a menos de 500 metros de uma Academia da Cidade (lugar com equipamentos e profissionais voltados à prática de exercício) tinha uma chance 16% maior de ser ativo no lazer, quando comparado a indivíduos que residiam a uma distância de 1 a 1,5 quilômetro.

    Detalhe: os 1 621 entrevistados não iam à Academia da Cidade.

    “Acreditamos no efeito social. Alguém conta que passou a se exercitar num centro e isso estimula pessoas ao redor a se mexerem, nem que de outras formas”, conta Waleska Caiaffa, médica que orientou o trabalho, da Universidade Federal de Minas Gerais. BH conta com 77 dessas academias.

    E para não deixar passar: inexistem dados centralizados de todas as capitais sobre o número de parques. Daí por que o ranking recorreu a um indicador indireto, o de arborização do Censo de 2010 (veja acima).

    2. Acesso a transporte público

    “Acho que esse é um ponto deficiente do ranking”, opina Priscila.

    Na ausência de outras estatísticas nacionais, a nota do transporte público de cada capital foi definida só pela quantidade de ônibus para cada 100 mil habitantes.

    “Mas, em São Paulo, estudos nossos sugerem que uma estação de metrô é mais determinante para a atividade física do que pontos de ônibus”, pondera Florindo.

    Acima disso, a qualidade dos serviços e a integração entre eles são vitais.

    “Os itinerários, a manutenção, a interligação com a rede cicloviária… Tudo isso interfere na opção de um indivíduo trocar o carro por meios de transporte que o fazem se mover mais”, argumenta Priscila. “Infelizmente, não deu para abranger essas características no trabalho”, completa.

    Curitiba — oitava colocada na categoria — tem projetos interessantes nesse sentido.

    “A cidade possui Ruas da Cidadania, que ficam próximas a terminais do transporte coletivo. Nesses locais, […] são promovidas atividades esportivas, recreativas, culturais e artísticas gratuitas. Todos os espaços públicos, como os parques, são atendidos por ônibus”, afirma a prefeitura, por meio de nota.

    3. Desenho urbano

    Aquele típico bairro de subúrbio americano, com uma interminável sequência de casinhas, desencoraja o estilo de vida ativo, por mais relaxante que pareça. Até certo limite, áreas com maior densidade populacional e comercial tendem a fazer as pessoas andarem pra lá e pra cá.

    É o que chamamos de uso misto do solo”, explica Reis.

    Em vez de pegar o carro, o sujeito caminha até o prédio do amigo, compra pão na padaria, almoça no restaurante da esquina, vai com o filho de mãos dadas para a escola… e pode achar trabalho em uma loja local.

    Entretanto, o desenho urbano varia dentro de um mesmo município, assim como outros itens do ranking. São Paulo, para citar um caso, lidera esse domínio, porém hospeda o Morumbi, onde mal se vê gente nas ruas e prevalecem casarões intercalados por favelas.

    “Há ainda trechos da zona leste que são bairros dormitórios”, diz Florindo.

    Ali, a densidade residencial é até alta, mas a oferta de empregos, irrisória. Isso obriga os moradores a viajarem pela capital em busca de sustento.

    “Devemos organizar melhor o crescimento das cidades e descartar um modelo de fuga para subúrbios”, afirma a urbanista Gabriela Callejas.

    4. Estrutura viária para a atividade física

    Falamos de calçadas, faixas de pedestre, iluminação, ciclofaixas… Ah, esse último item não foi computado pela falta de dados nacionais sobre a quilometragem de vias para bicicletas.

    De qualquer jeito, imagine como é mais chato andar ou correr por Rio Branco, que só possui 31% de ruas com calçadas, do que em Belo Horizonte, onde o índice chega a 94%. Aliás, a cidade mineira, como outras, fecha certas vias para os automóveis aos domingos, de modo a fazer mais gente suar a camisa.

    “O programa BH É da Gente promove a prática de atividade física […] e a convivência em locais públicos”, afirma a prefeitura, em nota.

    Nesses momentos, há programação especial, incluindo brincadeiras de rua.

    Para além desse tipo de projeto, o arquiteto Fábio Silva, da PUC-PR, lista táticas que tornam o ambiente mais amistoso ao deslocamento ativo:

    “Podemos pensar em faixas de pedestre elevadas, que diminuem a velocidade dos carros. Ou no bloqueio de algumas vagas de estacionamento na rua, transformando-as em minipraças que servem como área de descanso e sinalizam que a rua não é só para automóveis”.

    5. Mortes no trânsito e criminalidade

    Após entrevistar 1 261 curitibanos em um estudo de 2012, os três autores do ranking concluíram que a percepção de insegurança foi ligada a maiores taxas de inatividade física. Mas só entre os mais ricos.

    “Os menos favorecidos, ainda que sintam medo, às vezes são obrigados a caminhar em locais perigosos”, aponta Akira.

    Se você estranhou o Rio de Janeiro na vice-liderança, note que os dados de homicídio se referem a 2014 e que há outras cidades sofrendo demais com crimes.

    “Manaus chama a atenção para o grave problema de segurança […] que impactou no melhor desempenho no ranking ”, escreve a prefeitura.

    Em nono lugar nesse domínio, a capital do Amazonas decretou faz pouco estado de emergência pela onda de violência.

    Fora tudo isso, o trânsito também pode ser selvagem. Vamos combinar que o medo de pegar uma bicicleta ou atravessar uma rua sobe em cidades como Porto Velho, com 56 mortes no trânsito a cada 100 mil habitantes, segundo os dados inseridos no ranking. É crucial investir em sinalização, fiscalização e na criação de vias mais tranquilas, que considerem todos os meios de transporte… e a vida.

    Para onde devemos caminhar

    No fim das contas, não dá para louvar os municípios que encabeçam o Ranking das Capitais Brasileiras Amigas da Atividade Física, ignorando suas falhas. Primeiro porque a comparação foi feita só entre cidades do nosso país.Mais importante do que isso, ir bem em um domínio e fracassar no seguinte pode pôr tudo a perder. Sim, os pontos que discutimos estão enroscados uns nos outros.

    “Não adianta construir um parque cheio de instalações esportivas se os usuários têm medo de ser assaltados e se não há um transporte público de qualidade que os leve até lá”, contextualiza Reis.

    O Departamento de Comunicação da prefeitura de Porto Velho, que ocupa a última posição, encaminhou um e-mail a SAÚDE que ilustra esse olhar enviesado.

    “A prefeitura […] se depara com essa colocação de certa forma surpresa. Nossos programas e projetos são consolidados junto à nossa gente, como Talentos do Futuro, Projetos Viva Bem, Viver Ativo, Rua de Lazer, Dia do Desafio, Interdistrital de Esportes, Jogos dos Servidores, Festivais de Praia, Corrida de Voadeiras e outros.”

    Ok, mas e o transporte? E a criminalidade? E o desenho urbano?

    “Em época de eleição, o olhar fragmentado da gestão pública fica claro. Defende-se um projeto para a saúde, outro para a educação e um terceiro para os esportes, quando tudo deveria estar interligado”, comenta Gabriela.

    Nesse contexto, até o clima, a economia local e questões geográficas, como a presença de praias, merecem ser consideradas em um plano amplo de incentivo ao cotidiano ativo.

    Então a motivação pessoal não importa? Claro que ela tem seu papel. E o bacana é que podemos intervir até aí.

    “A vontade de praticar esportes é maior entre quem teve experiências positivas nas aulas de educação física”, exemplifica Crochemore da Silva.

    O ranking pode não contemplar fatores como esse, porém deixa evidente que o tempo de culpar a preguiça passou. E o de buscar soluções em prol de uma vida mais ativa e humana nas cidades está só começando.

    Como seria a cidade perfeita para atividade física

    Veja, abaixo, uma espécie de maquete do que seria um município que promove a vida ativa pra valer. Cada um dos fatores destacados é consolidado por estudos científicos:

     Fonte: Saúde Abril

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