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    Esclerose múltipla tem diagnóstico difícil em fase inicial

    Os sintomas mais frequentes da esclerose múltipla são os sensitivos e os motores, seguidos dos vestibulares e dos visuais, como a visão dupla, e os caracterizados por tremor.

    esclerose múltipla é uma doença inflamatória crônica que causa dificuldades motoras e sensitivas capazes de comprometer muito a qualidade de vida dos pacientes. É rara e, segundo a Associação Brasileira de Esclerose Múltipla (Abem), atinge geralmente jovens, em especial mulheres entre 20 e 40 anos. Também é mais comum em pessoas de pele branca.

    As causas ainda são desconhecidas e a evolução pode acontecer de forma diferente em cada indivíduo. Sua principal característica é a ocorrência de sintomas diversos em surtos imprevisíveis. O paciente pode sentir desde formigamentos até dificuldades para andar, problemas de equilíbrio e de visão, entre outros. O diagnóstico é basicamente clínico, mas já existem exames laboratoriais e de imagem que ajudam a confirmá-lo e a acompanhar o seu progresso.

    “A pessoa pode passar dois ou três anos apresentando pequenos sintomas sensitivos, pequenas turvações da visão ou pequenas alterações no controle da urina sem dar importância a esses sinais.”

    A DOENÇA

    A esclerose múltipla é difícil de ser diagnosticada em suas fases iniciais. De acordo com o neurologista dr. Dagoberto Callegaro, no começo ela pode ser bastante sutil e se manifestar através de sintomas transitórios que duram até uma semana. Assim, o paciente não dá a devida importância aos sinais, pois não imagina que está doente. Na sua forma mais comum, a doença é remitente-recorrente, o que significa que os sintomas vão e voltam, independentemente do tratamento.

    “A pessoa pode passar dois ou três anos apresentando pequenos sintomas sensitivos, pequenas turvações da visão ou pequenas alterações no controle da urina, sem dar importância a esses sinais, porque em três ou quatro dias eles desaparecem e acabam sendo atribuídos ao mau posicionamento do corpo durante o sono ou a um cisco que entrou no olho e turvou a visão, por exemplo. As coisas vão caminhando assim até que apareça um sintoma de maior magnitude representado por fraqueza importante numa perna ou por perda visual prolongada. Só então um médico é procurado”, esclarece.

    Outros sintomas comuns são pequenos tremores e visão dupla, que pode fazer o paciente olhar um objeto e enxergar dois. O médico explica que, ao atender alguém com suspeita clínica da doença, é muito comum encontrar em sua história pregressa pequenos sinais que lhe passaram totalmente despercebidos, às vezes por três, quatro ou cinco anos. Os sintomas geralmente aparecem no adulto jovem, ao redor dos 20, 30 ou 35 anos.

    TIPOS DE SINTOMAS

    Os sintomas mais frequentes da esclerose múltipla são os sensitivos e os motores, seguidos dos visuais e vestibulares (como a visão dupla), e os caracterizados por tremor (chamados de sintomas cerebelares).

    Entre os sintomas sensitivos está a perda de sensibilidade nos membros inferiores ou do hemicorpo, que significa a perda de sensibilidade em apenas um lado do corpo. Já os sintomas motores incluem fraqueza, dificuldade para escrever ou para correr. Em muitos casos, o paciente percebe que tem a doença porque sua performance habitual na prática de algum esporte começa a cair.

    “Por exemplo, ele estava acostumado a correr meia hora, mas a partir de um momento, depois de 15 minutos já está cansado e começa a puxar uma perna. Geralmente, a dificuldade motora não é bilateral; ela se manifesta apenas no membro de um dos lados do corpo”, afirma o médico.

    BAINHA DE MIELINA

    A bainha de mielina é a camada que envolve os neurônios do sistema nervoso central. À medida que a doença progride, ela vai destruindo a bainha, de forma que a comunicação entre os neurônios é prejudicada.

    “Imagine um neurônio do córtex que tenha de mandar informação para o neurônio da medula espinal que regula a contração da perna. Se no trajeto houver uma célula que inflamou e tem a bainha destruída, a ordem não passa e a função não se realiza. A pessoa pensa em mexer a perna, mas o comando não chega lá”, exemplifica o dr. Dagoberto.

    O neurologista explica que, no início, a inflamação é pouco destrutiva e, em poucos dias, a função retorna parcialmente. Após algum tempo, as lesões ficam mais intensas e o próprio cérebro perde as condições de se reorganizar e de mielinizar. Assim, a função é perdida definitivamente.

    DIAGNÓSTICO

    O médico afirma que é difícil diagnosticar uma enfermidade que pode desaparecer espontaneamente, pelo menos nos primeiros anos, sem a ajuda de exames subsidiários. Mas hoje existe a ressonância magnética, exame que permite a identificação da esclerose logo no começo, além de exames hematológicos e do líquido cefalorraquidiano que envolve todo o cérebro.

    “De posse desses resultados, é possível excluir doenças virais, tumorais, mal formativas e infecciosas que podem, no início, simular a esclerose múltipla.”

    A esclerose múltipla é mais frequente em alguns locais do mundo e em determinadas populações. Por conta disso, há quem acredite que exista um agente infeccioso por trás da doença, mas esse ainda é um ponto controverso. Para o médico, essa é uma questão polêmica.

    “Há trabalhos em todas as linhas de pensamento. Há os epidemiológicos mostrando que a agressão repetida por algum fator ambiental (infeccioso, produtos tóxicos ou alimentares etc.) vai determinar o aparecimento da doença, e há aqueles que demonstram ser a genética um fator muito importante para o aparecimento da esclerose múltipla.”

    No início, a maioria dos pacientes tem remissão quase completa. Assim, os primeiros surtos praticamente não deixam sequelas, de forma que o exame neurológico pode não apontar nenhum sinal da esclerose. “Com o passar dos anos, porém, pode ocorrer uma superposição de sintomas, ou seja, a repetição de sintomas na mesma área do sistema nervoso central vai deixando sequelas que conseguimos caracterizar ou identificar pelas queixas do paciente. ‘Olhe, de tal época para cá não consegui mais andar sem o apoio de uma bengala’. Ou então podemos usar o exame neurológico que revela os sinais clássicos e peculiares da síndrome”, explica o dr. Dagoberto.

    “Todas as drogas que conhecemos apenas espaçam os episódios de recorrência ou reduzem a intensidade dos surtos. Dificilmente, com a metodologia terapêutica atual, o paciente ficará livre da doença.”

    TRATAMENTO

    O paciente com os sintomas atenuados pode ficar sem tratamento. Nesses casos, a evolução do quadro é acompanhada por meio da ressonância magnética. Se as inflamações se repetirem, é necessário estabelecer uma medicação preventiva. Caso contrário, o paciente é observado e o médico faz uma análise periódica de seu cérebro por meio das imagens obtidas no exame.“Quando a doença não dá sinais de retorno, não há necessidade de introduzir o tratamento, porque os recursos de que dispomos não são curativos e têm efeitos colaterais bastante adversos. Por isso, é preciso sempre nos posicionar no sentido de escolher a melhor conduta terapêutica para cuidar de cada pessoa em particular.”

    É importante lembrar que, por se tratar de uma doença remitente-recorrente, o objetivo da medicação é reduzir o risco de um novo surto, aumentando o intervalo entre um sintoma e outro.

    “Todas as drogas que conhecemos apenas espaçam os episódios de recorrência  ou reduzem a intensidade dos surtos. Dificilmente, com a metodologia terapêutica atual, o paciente ficará livre da doença”, diz o médico.

    FISIOTERAPIA

    A atividade física serve como uma terapêutica paliativa, que não muda a evolução da doença. Quando o paciente já tem uma perda motora significativa, a recomendação é buscar fisioterapia para ampliar os movimentos. O objetivo desse tratamento é reformular o ato motor, dando ênfase aos músculos que estão mais conservados. “A fisioterapia também é muito importante para a reeducação esfinctérica. O paciente com dificuldade de micção (urinar) irá reeducar essa função através de medicamentos e dos exercícios fisioterápicos”, finaliza o neurologista.

    Fonte: Drauzio Varella por Maiara Ribeiro

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